quinta-feira, 24 de novembro de 2011

O mundo virou um bairro

Gilberto Dimenstein - 21/11/11
Em diferentes listas sobre as pessoas mais inovadoras do mundo, aparece o engenheiro Salman Khan, que há pouco tempo ganhava a vida no mercado financeiro até que, por acaso, descobriu um talento.
Para ajudar uma sobrinha com dificuldades nas lições de matemática, ele postou vídeos na internet. Mais simples impossível: apenas sua mão rabiscando uma lousa. A experiência familiar se espalhou: hoje é a maior sala de aula do mundo, com 3 milhões de alunos aprendendo ciências nas mais diversas línguas, inclusive em português. Um software ajuda o aluno a aprender no seu próprio ritmo. Para completar: tudo de graça. As aulas são usadas tanto numa vila rural da Índia como nos bairros abastados dos Estados Unidos e da Inglaterra.
Estive, na semana passada, com Salman Khan, ex-aluno de Harvard, um jovem ainda com traços de adolescente, que reuniu um grupo de educadores para explicar seus planos. Contava, com entusiasmo juvenil, sem nenhum esnobismo acadêmico, como estava ajudando a fazer do mundo uma sala de aula.
Inventores do futuro como ele me submeteram, neste ano, a uma terapia intensiva de humildade, na qual temos de aprender a conviver com a nossa insignificância, por melhores que nos consideremos.
O encontro coincidiu com a semana de encerramento do meu primeiro ano em Harvard, onde vim desenvolver um projeto de jornalismo comunitário. Continuo nessa incubadora de projetos sociais no próximo ano, mas a maior parte do tempo em São Paulo, também em colaboração com o Media Lab (MIT).
Foi nesse encontro com Salman que defini o que vivi por aqui: uma terapia intensiva de humildade.
Ele conseguiu transformar uma lição de casa familiar num projeto global porque teve a ajuda de outro ex-aluno de Harvard e inventor do futuro. Bill Gates, que estava usando aquelas aulas gratuitas para ensinar matemática a um filho, decidiu investir no projeto.
As pessoas associam Bill Gates à criação de produtos de informática, mas isso é pouco em comparação com o que ele vem fazendo ao estimular inovadores como Khan. Em sua fundação, Gates está gastando bilhões para desenvolver soluções contra a pobreza, especialmente vacinas. Uma das vacinas que ele ajudou a desenvolver conseguiu reduzir pela metade a morte de crianças com malária na África.
A terapia de humildade intensiva não se restringe ao campus de Harvard, mas estende-se à cidade de Cambridge, onde está o MIT. Nessa pequena cidade, está a maior concentração de ganhadores do Prêmio Nobel por metro quadrado. Comendo uma pizza, você pode estar ao lado do cientista que criou o sal de reidratação oral, responsável por salvar milhões de vidas, ou do médico que descobriu que se pode ser um fumante passivo. Talvez esteja lá Tim Berners-Lee, também morador de Cambridge, o inventor da combinação de três letras que mudou nosso cotidiano: www.
Pode-se encontrar numa festa ou num parque o idealizador do projeto Genoma ou aquele que é considerado o pai da inteligência artificial. Talvez também o inventor do e-mail.
Neste ano em que estou aqui, vi nascer um centro de pesquisas cuja tarefa era encontrar melhores tratamentos para o câncer (ou a sua cura). Juntaram no mesmo prédio médicos e engenheiros. Num centro de pesquisas biológicas, conseguiram rejuvenescer um rato e ali se cultiva a hipótese teórica da imortalidade. Pode-se duvidar da imortalidade, mas o tal ratinho está lá.
Acompanhei a articulação, comandada por Harvard, de uma biblioteca universal, com todo o conhecimento relevante produzido pela humanidade – tudo gratuito.
Nesse ambiente, em que o cotidiano é feito de inventores do futuro, inconformados com as limitações do presente, não dá para saber se aquele ou aquela jovem num banco de jardim, lendo um livro, será um futuro presidente dos Estados Unidos ou do Chile, a primeira mulher a dirigir um país africano, um ganhador do Prêmio Nobel da Paz ou o inventor de uma Microsoft ou de um Facebook.
Ou ainda se, como Salman, filho de imigrantes de Bangladesh, vai fazer do mundo uma sala de aula.
PS – Muita gente, vinda de muitos lugares, passa por aqui, seja estudando, seja gerando conexões planetárias. Senti, muitas vezes, que o mundo, de tão próximo, parecia um bairro. Como este espaço é limitado para compartilhar meu aprendizado, preparei um pequeno e-book, com base nos meus textos deste ano, intitulado “O Ano em que o Mundo Virou um Bairro”. Está disponível na internet (www.catracalivre.com.br).

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Você já conversou com seu vizinho?

Se você vive num grande centro e está lendo essa pergunta, a resposta vai ser provavelmente não ou raramente. Talvez até queira, mas não vai bater na porta dele com um bolo na mão.
Começou nesta semana nos Estados Unidos uma experiência batizada de NextDoor para ajudar a reinventar o conceito de vizinhança, criando uma rede social por rua (o detalhamento está no www.catracalivre.com.br).
O conceito de vizinhança sumiu das cidades grandes, gerando baixo capital social e uma sensação de isolamento. Isso é o que se chama baixo capital social, o que dificulta a resolução de problemas. As redes sociais aproximaram como nunca as pessoas, surgindo assim uma chance virtual de melhor a comunidade real.
O interessante disso é a comprovação de que, na era global, cresce a tendência do "hiperlocal". São inúmeros os projetos de comunicação investindo na hiperlocalidade como eixo de identidade. Um site está fazendo o maior sucesso por promover trocas entre vizinhos.
Experiências como o NextDoor trazem a possibilidade de debates sobre problemas e busca de soluções. O que pode ser um novo elemento nas eleições municipais que se aproximam.
Sou daqueles que para consertar o que é grande tem que começar a fazer pequeno. Para mudar o mundo é melhorar começar mudando a sua rua.
Gilberto Dimenstein, 54, integra o Conselho Editorial da Folha de São Paulo e vive nos Estados Unidos, onde foi convidado para desenvolver em Harvard projeto de comunicação para a cidadania.